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8.2.11

:: e n j o y

you may not believe it
but there are people
who go through life with
very little friction or distress.
p1
they dress well,
eat well, sleep well.
they are contented with
their family life.
they have moments of grief
but all in all
they are undisturbed
and often feel very good.
p2
and when they die
it is an easy death,
usually in their sleep.

you may not believe it
but such people do exist.

but I am not one of them.
oh no, I am not one of them,
I am not even near
to being one of them

but they are there
p3
.
.
.
.
.
and I am here.
by charles bukowski

6.12.10

:: um conto de natal

.......................................................what happened
se eu quisesse, podia contar muitas histórias sobre o dito cujo. mas basta esta, a primeira que me vem à cabeça. um belo dia, após uma bela noite de sono, o dito cujo abriu os olhos, levantou-se da cama, dirigiu-se ainda meio ensonado ao quarto de banho, olhou para o espelho e, oh!, fez uma careta terrível! caramba, a terrível careta que ele fez! e depois disse: “xanto deux, o gue agontexeu à minha gara? parexo o gregor xamxa.”
o que significa: “santo deus, o que aconteceu à minha cara? pareço o gregor samsa”, mas ele pronunciava mal as palavras, por causa daquilo que acontecera à sua cara durante a noite. e é tudo.”
rui manuel amaral na “365”

...e eu, que acordei com a cara feita numa melancia lustrosa. não! acho que acordei uma melancia lustrosa com cara, assim é que é!
e isso deixou-me para já, três dias fechado em casa e com receio de saír à rua, por poder causar repulsa às pessoas, que por esta altura do ano abundam felizes plas ruas, cheias de pressa e sacos de compras, embrulhos e fitinhas às cores.
2senhorasDianeArbus
fotografia: diane arbus
afinal não era eu, eram elas, as pessoas.
afinal nao era uma melancia lustrosa, era um abcesso.
e é tudo.

o comércio tradicional deseja-lhe um bom natal!


nota: one morning, when gregor samsa woke from troubled dreams,
he found himself transformed in his bed into a horrible vermin.”
in “metamorphosis” de franz kafka (1883-1924)

29.5.10

:: convalescente

O baraoTrepador #183ax
.
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EPiLOG
O baraoTrepador #184bx
in "o barão trepador"

trepaArvore
a saber: cosimo rondó viveu toda a sua vida em cima das árvores.
excepto uma vez, mas por engano, em que se encarrapitou nas astes de um veado.

8.8.09

:: um por dia nem sabe o bem que lhe fazia # 06

começou a mexer o café com leite com a colherzinha. o líquido quase transbordava da chávena empurrado pelo movimento do utensílio de alumínio (o recipiente era vulgar, o sítio era ordinário e a colher estava arredondada pelo uso). ouvia-se o barulho do metal contra o vidro. tim, tim, tim, tim. e o café com leite girava, girava com uma cova no meio. um maelstrom. e eu encontrava-me sentado mesmo à frente. o café estava à pinha. o homem continuava a mexer, a mexer, imóvel, e sorria ao olhar-me. senti uma coisa subir por mim acima. fitei-o de tal maneira que se viu na obrigação de se explicar:– o açúcar ainda não está derretido. para mo provar, bateu com a colher várias vezes no fundo do copo. recomeçou a mexer metodicamente a beberagem, com uma energia redobrada. voltas e mais voltas, sem parar, eternamente. voltas e mais voltas e mais voltas. e continuava a olhar para mim, sorrindo. então puxei da pistola e disparei.
crimesExemplaresMA1x1
in crimes exemplares, de max aub

nota: fazia quase, uma coisa parecida com um esforço, para não publicar esta confissão em particular, por ser a mais conhecida.
mas por vezes temos de abdicar das nossas convicções. até mesmo pela pop.

11.5.09

:: um por dia nem sabe o bem que lhe fazia # 05

antes morrer! disse-me ela. e pensar que o que eu mais gostava era fazer-lhe a vontade.
crimesExemplaresMA1x1
in crimes exemplares, de max aub

22.4.09

:: um por dia nem sabe o bem que lhe fazia # 04

não tenho vontade própria. nenhuma. deixo-me influenciar por qualquer pessoa. fico logo convencido, basta que me dêem o exemplo. ele matou a sua mulher e eu a minha. a culpa é dessa revista que conta tudo, com todos os promenores.
crimesExemplaresMA1x1
in crimes exemplares, de max aub

11.4.09

:: um por dia nem sabe o bem que lhe fazia # 03

não suporto o contacto do veludo. sou alérgico ao veludo. só de falar dele fico com a pele toda arrepiada. não sei como é que a conversa deslizou para aí. o tipo era um pedante e não acreditava senão na satisfação das suas fantasias. não sei onde é que ele foi buscar o pedaço de veludo que começou a passar-me pelas faces, pela nuca e pelas narinas; mas foi a última vez que o fez.
crimesExemplaresMA1x1
in crimes exemplares, de max aub

28.3.09

:: um por dia nem sabe o bem que lhe fazia # 02

ela falava, e falava, e falava, e falava. falava pelos cotovelos. e continuava a falar. eu sou a dona da casa. mas aquela empregada gorda só sabia era falar, falar, falar. onde quer que eu estivesse, lá vinha ela e começava a falar. de tudo e de nada, disto e daquilo, para ela tanto fazia. despedi-la por causa disso? teria que lhe dar três meses de indemnização. ainda por cima, seria bem capaz de me rogar uma praga. até na casa de banho: e assim e assado, e frito e cozido. enfiei-lhe a toalha na boca para que se calasse. não morreu por causa disso, mas por já não poder falar: as palavras rebentaram-na toda por dentro.
crimesExemplaresMA1x1
in crimes exemplares, de max aub

27.3.09

:: um por dia* nem sabe o bem que lhe fazia # 01

FICHA 342

NOME DO DOENTE: Agrasot, Luisa.
IDADE: 24 anos.
NATURALIDADE: Veracruz, Ver.
DIAGNÓSTICO: erupção cutânea, provavelmente de origem polibacilar.
TRATAMENTO: 2.000.000 unidades de penicilina.
RESULTADO: nulo.
OBSERVAÇÕES: caso único. recalcitrante. sem precedentes.
a partir do décimo quinto dia senti-me vencido. o diagnóstico era perfeitamente claro. impossível ter a menor dúvida. perante o fracasso da penicilina, tentei em vão toda a espécie de medicamentos, não sabia o que fazer. dei voltas ao miolo dia e noite, durante semanas e semanas, até que lhe administrei uma dose de cianeto de potássio. a paciência – mesmo com os pacientes – tem limites.
crimesExemplaresMA1x1
in crimes exemplares, de max aub


[*] que ñ é bem por dia, nem coisa q se pareça

7.12.07

:: as baratas

franzisko Kapa umas vezes, noutras franz Kapa ou franz K, mas sempre engenheiro de minas" (...) "...por ser tão reservado é q pouco ou nada se conhece do passado d franzisko Kapa..." (...) "...criatura apátrida e sem família circulava d dia pelos labirintos subterrâneos q ia escavando incansávelmente e à noite fechava-se em casa a desenhar insectos e a beber aguardente de medronho." (...) "Assim vivia agora. entre a enxerga e a mesa coberta de cadáveres, retortas e dissecações, e com imagens de insectos descomunais a penderem das paredes.

in: "a república dos corvos" cap. #3 "as baratas"
José Cardoso Pires