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6.12.10

:: um conto de natal

.......................................................what happened
se eu quisesse, podia contar muitas histórias sobre o dito cujo. mas basta esta, a primeira que me vem à cabeça. um belo dia, após uma bela noite de sono, o dito cujo abriu os olhos, levantou-se da cama, dirigiu-se ainda meio ensonado ao quarto de banho, olhou para o espelho e, oh!, fez uma careta terrível! caramba, a terrível careta que ele fez! e depois disse: “xanto deux, o gue agontexeu à minha gara? parexo o gregor xamxa.”
o que significa: “santo deus, o que aconteceu à minha cara? pareço o gregor samsa”, mas ele pronunciava mal as palavras, por causa daquilo que acontecera à sua cara durante a noite. e é tudo.”
rui manuel amaral na “365”

...e eu, que acordei com a cara feita numa melancia lustrosa. não! acho que acordei uma melancia lustrosa com cara, assim é que é!
e isso deixou-me para já, três dias fechado em casa e com receio de saír à rua, por poder causar repulsa às pessoas, que por esta altura do ano abundam felizes plas ruas, cheias de pressa e sacos de compras, embrulhos e fitinhas às cores.
2senhorasDianeArbus
fotografia: diane arbus
afinal não era eu, eram elas, as pessoas.
afinal nao era uma melancia lustrosa, era um abcesso.
e é tudo.

o comércio tradicional deseja-lhe um bom natal!


nota: one morning, when gregor samsa woke from troubled dreams,
he found himself transformed in his bed into a horrible vermin.”
in “metamorphosis” de franz kafka (1883-1924)

29.5.10

:: convalescente

O baraoTrepador #183ax
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EPiLOG
O baraoTrepador #184bx
in "o barão trepador"

trepaArvore
a saber: cosimo rondó viveu toda a sua vida em cima das árvores.
excepto uma vez, mas por engano, em que se encarrapitou nas astes de um veado.

8.8.09

:: um por dia nem sabe o bem que lhe fazia # 06

começou a mexer o café com leite com a colherzinha. o líquido quase transbordava da chávena empurrado pelo movimento do utensílio de alumínio (o recipiente era vulgar, o sítio era ordinário e a colher estava arredondada pelo uso). ouvia-se o barulho do metal contra o vidro. tim, tim, tim, tim. e o café com leite girava, girava com uma cova no meio. um maelstrom. e eu encontrava-me sentado mesmo à frente. o café estava à pinha. o homem continuava a mexer, a mexer, imóvel, e sorria ao olhar-me. senti uma coisa subir por mim acima. fitei-o de tal maneira que se viu na obrigação de se explicar:– o açúcar ainda não está derretido. para mo provar, bateu com a colher várias vezes no fundo do copo. recomeçou a mexer metodicamente a beberagem, com uma energia redobrada. voltas e mais voltas, sem parar, eternamente. voltas e mais voltas e mais voltas. e continuava a olhar para mim, sorrindo. então puxei da pistola e disparei.
crimesExemplaresMA1x1
in crimes exemplares, de max aub

nota: fazia quase, uma coisa parecida com um esforço, para não publicar esta confissão em particular, por ser a mais conhecida.
mas por vezes temos de abdicar das nossas convicções. até mesmo pela pop.

11.5.09

:: um por dia nem sabe o bem que lhe fazia # 05

antes morrer! disse-me ela. e pensar que o que eu mais gostava era fazer-lhe a vontade.
crimesExemplaresMA1x1
in crimes exemplares, de max aub

22.4.09

:: um por dia nem sabe o bem que lhe fazia # 04

não tenho vontade própria. nenhuma. deixo-me influenciar por qualquer pessoa. fico logo convencido, basta que me dêem o exemplo. ele matou a sua mulher e eu a minha. a culpa é dessa revista que conta tudo, com todos os promenores.
crimesExemplaresMA1x1
in crimes exemplares, de max aub

11.4.09

:: um por dia nem sabe o bem que lhe fazia # 03

não suporto o contacto do veludo. sou alérgico ao veludo. só de falar dele fico com a pele toda arrepiada. não sei como é que a conversa deslizou para aí. o tipo era um pedante e não acreditava senão na satisfação das suas fantasias. não sei onde é que ele foi buscar o pedaço de veludo que começou a passar-me pelas faces, pela nuca e pelas narinas; mas foi a última vez que o fez.
crimesExemplaresMA1x1
in crimes exemplares, de max aub

28.3.09

:: um por dia nem sabe o bem que lhe fazia # 02

ela falava, e falava, e falava, e falava. falava pelos cotovelos. e continuava a falar. eu sou a dona da casa. mas aquela empregada gorda só sabia era falar, falar, falar. onde quer que eu estivesse, lá vinha ela e começava a falar. de tudo e de nada, disto e daquilo, para ela tanto fazia. despedi-la por causa disso? teria que lhe dar três meses de indemnização. ainda por cima, seria bem capaz de me rogar uma praga. até na casa de banho: e assim e assado, e frito e cozido. enfiei-lhe a toalha na boca para que se calasse. não morreu por causa disso, mas por já não poder falar: as palavras rebentaram-na toda por dentro.
crimesExemplaresMA1x1
in crimes exemplares, de max aub

27.3.09

:: um por dia* nem sabe o bem que lhe fazia # 01

FICHA 342

NOME DO DOENTE: Agrasot, Luisa.
IDADE: 24 anos.
NATURALIDADE: Veracruz, Ver.
DIAGNÓSTICO: erupção cutânea, provavelmente de origem polibacilar.
TRATAMENTO: 2.000.000 unidades de penicilina.
RESULTADO: nulo.
OBSERVAÇÕES: caso único. recalcitrante. sem precedentes.
a partir do décimo quinto dia senti-me vencido. o diagnóstico era perfeitamente claro. impossível ter a menor dúvida. perante o fracasso da penicilina, tentei em vão toda a espécie de medicamentos, não sabia o que fazer. dei voltas ao miolo dia e noite, durante semanas e semanas, até que lhe administrei uma dose de cianeto de potássio. a paciência – mesmo com os pacientes – tem limites.
crimesExemplaresMA1x1
in crimes exemplares, de max aub


[*] que ñ é bem por dia, nem coisa q se pareça