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8.8.09

:: um por dia nem sabe o bem que lhe fazia # 06

“começou a mexer o café com leite com a colherzinha. o líquido quase transbordava da chávena empurrado pelo movimento do utensílio de alumínio (o recipiente era vulgar, o sítio era ordinário e a colher estava arredondada pelo uso). ouvia-se o barulho do metal contra o vidro. tim, tim, tim, tim. e o café com leite girava, girava com uma cova no meio. um maelstrom. e eu encontrava-me sentado mesmo à frente. o café estava à pinha. o homem continuava a mexer, a mexer, imóvel, e sorria ao olhar-me. senti uma coisa subir por mim acima. fitei-o de tal maneira que se viu na obrigação de se explicar:– o açúcar ainda não está derretido. para mo provar, bateu com a colher várias vezes no fundo do copo. recomeçou a mexer metodicamente a beberagem, com uma energia redobrada. voltas e mais voltas, sem parar, eternamente. voltas e mais voltas e mais voltas. e continuava a olhar para mim, sorrindo. então puxei da pistola e disparei.
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in crimes exemplares, de max aub

nota: fazia quase, uma coisa parecida com um esforço, para não publicar esta confissão em particular, por ser a mais conhecida.
mas por vezes temos de abdicar das nossas convicções. até mesmo pela pop.

11.5.09

:: um por dia nem sabe o bem que lhe fazia # 05

“antes morrer! disse-me ela. e pensar que o que eu mais gostava era fazer-lhe a vontade.
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in crimes exemplares, de max aub

22.4.09

:: um por dia nem sabe o bem que lhe fazia # 04

“não tenho vontade própria. nenhuma. deixo-me influenciar por qualquer pessoa. fico logo convencido, basta que me dêem o exemplo. ele matou a sua mulher e eu a minha. a culpa é dessa revista que conta tudo, com todos os promenores.
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in crimes exemplares, de max aub

11.4.09

:: um por dia nem sabe o bem que lhe fazia # 03

“não suporto o contacto do veludo. sou alérgico ao veludo. só de falar dele fico com a pele toda arrepiada. não sei como é que a conversa deslizou para aí. o tipo era um pedante e não acreditava senão na satisfação das suas fantasias. não sei onde é que ele foi buscar o pedaço de veludo que começou a passar-me pelas faces, pela nuca e pelas narinas; mas foi a última vez que o fez.
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28.3.09

:: um por dia nem sabe o bem que lhe fazia # 02

“ela falava, e falava, e falava, e falava. falava pelos cotovelos. e continuava a falar. eu sou a dona da casa. mas aquela empregada gorda só sabia era falar, falar, falar. onde quer que eu estivesse, lá vinha ela e começava a falar. de tudo e de nada, disto e daquilo, para ela tanto fazia. despedi-la por causa disso? teria que lhe dar três meses de indemnização. ainda por cima, seria bem capaz de me rogar uma praga. até na casa de banho: e assim e assado, e frito e cozido. enfiei-lhe a toalha na boca para que se calasse. não morreu por causa disso, mas por já não poder falar: as palavras rebentaram-na toda por dentro.
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27.3.09

:: um por dia* nem sabe o bem que lhe fazia # 01

“FICHA 342

NOME DO DOENTE: Agrasot, Luisa.
IDADE: 24 anos.
NATURALIDADE: Veracruz, Ver.
DIAGNÓSTICO: erupção cutânea, provavelmente de origem polibacilar.
TRATAMENTO: 2.000.000 unidades de penicilina.
RESULTADO: nulo.
OBSERVAÇÕES: caso único. recalcitrante. sem precedentes.
a partir do décimo quinto dia senti-me vencido. o diagnóstico era perfeitamente claro. impossível ter a menor dúvida. perante o fracasso da penicilina, tentei em vão toda a espécie de medicamentos, não sabia o que fazer. dei voltas ao miolo dia e noite, durante semanas e semanas, até que lhe administrei uma dose de cianeto de potássio. a paciência – mesmo com os pacientes – tem limites.
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[*] que ñ é bem por dia, nem coisa q se pareça